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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fragmentos: A Marca da Maldade (1958)

O fragmento de filme  a ser observado desta vez (vídeo no final do texto) trata-se de um dos mais famosos e engenhosos planos-sequência da história do cinema, extraído do magnífico noir A Marca da Maldade, de Orson Welles - do qual prefiro chama de Touch of Evel por seu título original fazer mais jus ao complexo personagem Hank Quilan. No filme, acompanhamos o conflito ético profissional entre Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano em lua-de-mel em uma pequena cidade da fronteira dos EUA com o México, e Quilan, um detetive de preceitos morais bem particulares. A complexa trama tem início com um assassinato na fronteira entre os dois países, o que leva às investigações por profissionais de ambos os lados da fronteira. Enquanto Ramon tenta dar os primeiros passos na busca pelo autor do assassinato e presencia os comportamentos que indicam suspeitas condutas de Quilan, sua recém-esposa Susan Vargas (Janet Leigh) é interceptada por bandidos de uma quadrilha local em retaliação à recente prisão do líder do bando executada pelo chefe de polícia mexicano.

Abrindo o filme de maneira grandiosa e impactante, a sequência em questão mostra como ocorre o assassinato ao registrar o momento em que uma bomba é colocada em um carro estacionado em um determinado local da pequena cidade fronteiriça e o percurso vagaroso e tenso do automóvel, passando por ruas movimentadas como se fosse um presságio ruim de morte,  até o outro lado da fronteira, onde finalmente explode. O preciso plano-sequencia tem como a mais óbvia função, dentre tantas outras, expor com clareza geográfica como ocorre o assassinato ao registrar ininterruptamente o percurso da bomba implantada no porta-malas do carro que é conduzido por seus ingênuos passageiros até o outro lado da fronteira, os EUA. Não se esquecendo do realismo que, em geral, planos dessa natureza empregam, se analisarmos bem podemos perceber também que a atenção da câmera ao carro gera um crescente de tensão por conta do contraponto entre a urgência provocada pela nossa consciência a respeito do artefato explosivo e a impressão de lentidão e de imobilidade ocasionados pela não variação do ponto de vista, ou seja, a limitação do nosso olhar àquele único plano que, mesmo se movendo para as laterais ou tomando ângulos altos, está longe de reproduzir a mesmo urgência e velocidade que um corte de um plano para outro consegue imprimir.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fragmentos: A Queda da Casa de Usher (1928)

Fragmentos é um espaço do blog que criei para postar grandes sequências de filmes entraram para a história do cinema e que merecem destaque por marcarem e carregarem consigo os traços da genialidade de seus autores, sejam estas imagens belas, perfeitas, técnicas, dramáticas, comoventes ou até aterradoras. 

Este primeiro post eu dediquei ao filme considerado a obra-prima de Jean Epstein, A Queda da Casa de Usher, adaptado da obra homônimo do escritor estadunidense Edgar Allan Poe. Com a assistência de direção e co-roteirização do cineasta surrealista Luis Buñel (que se desentendeu com Jean Epstein no meio das filmagens), o filme nos faz acompanhar a visita de Allan a casa de Sir Roderick Usher para ajudá-lo com a sua esposa Madeleine Usher, que está adoecendo profundamente sob estranhos sintomas. Aos poucos, Allan começa a perceber situações estranhas no lugar, e também que o lento falecimento de Madeleine está relacionado a obsessão de Roderick em imprimir a imagem da personagem nas pinturas que produz. Enquanto os quadros parecem ganhar vida, a esposa surge cada vez mais desprovida de energia.

Utilizando uma linguagem típica da avant-garde, A Queda da Casa de Usher é um importante exemplar do cinema impressionista francês, que apresenta características e recursos típicos desse movimento que deu início às vanguardas cinematográficas da década de 20. Então podemos perceber estratégias de ruptura ao modelo clássico narrativo através proezas técnico-estilísticas, como a explicitação (a não ocultação dos métodos utilizados na realização de um filme), deformações óticas e o contraste do claro e escuro (característica mais ligada ao expressionismo). Além disso, Epstein se empenha em retratar a atmosfera trágica e sobrenatural da história de origem ao rodear o casarão por invasivas névoas, com ventos que constantemente invadem as janelas do lugar e balançam as cortinas que mais parecem vivas, ao passo que, no final, a casa parece agonizar como se fosse um organismo vivo.

Na história, Madeleine morre e os personagens a enterram. Roderick, no entanto, fica obcecado com a idéia de que sua esposa ainda esteja viva, até que ela, no último ato do filme, realmente retorna a casa, em uma sequência que marca profundamente de tão sinistra e bela em sua composição.

Abaixo, o citado momento do filme:


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fragmentos: Imagens do Exílio

Terra Estrangeira filmeAo mesmo tempo em que o Brasil sofria com os traumas políticos do passado, o brasileiro sentia a decepção de sua primeira empreitada democrática ruir com o presidente Collor, e como consequência, sua auto-estima era cada vez mais afetada. O cinema nacional, intrinsecamente a esse contexto, se encontrava em uma profunda crise. Com a Embrafilmes fechada pelo então presidente, a quantidade de filmes produzidos por ano caiu a quase zero e projetos foram cancelados. O cinema nacional estava, assim como o país, completamente desacreditado em si próprio.

Refletindo a história que se escrevia, o cinema brasileiro veio a ter suas primeiras reações justamente com o impeachment de Collor e as primeiras políticas de Itamar Franco, continuadas no governo de FHC. Tem-se aí o início da Retomada. Quando os recursos da extinta Embrafilmes foram distribuídos, os projetos paralisados puderam ser retomados e os novos diretores, que só esperavam por fomento, tiveram espaço e oportunidade. Uma das primeiras produções - ou a primeira - a se destacar internacionalmente foi o filme Terra Estrangeira, de Walter Salles.
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